Galeria de VOLTE-FACE #3 no Flickr.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Cartaz
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| ©Frederico Mira George (Crucificação) |
#26
Ontem, as golfadas de chuva, puras como um teorema. Hoje, Deus a duplicar anjos em forma de borboletas-traça, exército de mártires.
Não, não sou eu que vejo as coisas de forma obscura. São os eventos que chocam contra a minha pele, um atrás do outro, sem piedade, sem retrocesso.
Dizem-me que os sábios inventaram a coerência e convicção. Dizem tantas coisas dos sábios... Os sábios não falam! Nem uma sentença lhes é extorquida em períodos de apocalipse ou grosseiro desamor.
Há uma profecia de morte espalhada em nome dos sábios. Tontos os inocentes, tontos os alquimistas, tontos os magos e os escritores.
Anseio o efeito suave da morfina e protejo os olhos do Sol.
©
domingo, 8 de maio de 2011
Cartaz
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| ©Frederico Mira George |
#25
Olhei para a capa do romance, chamava-se «Noites de Tédio em Argel». Nem o folheei. Conhecia o autor de vista, um homem dos seus cinquenta anos, cabelo aloirado com uns traços de prata.
Tinha lido um dos seus livros e ficara perturbado com a forma que ele usava para inscrever as personagens à beira do fim. Parecia frio, quando na realidade ensinava uma compaixão extrema, quase jesuíta.
Neste momento não tenho capacidade para ler coisas assim. Sei que ficaria prostrado, atemorizado, sem apoio. Tenho o juízo tão frágil.
Não obstante, adormeci com o livro fixo a mim. Talvez confiasse que os caracteres tomassem os meus sonhos...
De manhã não sentia nada e o livro estava caído ao lado da cama.
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sábado, 7 de maio de 2011
Cartaz
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| ©Frederico Mira George |
#24
«Suponho que se quisermos incorporar os escritos da nossa história devemos fixar o passado como se fosse a vida de outro ser.»
A filosofia tem crueldades destas. Ninguém cobiça incorporar os escritos da sua crónica. Ou há gente assim? Não percebo...
«Fixar o passado como se fosse a vida de outro ser»[?], mas nós não sabemos nenhuma vida que não a nossa. É crueldade pura pôr as coisas assim. Seguir estes passos, fixar o passado como se nosso não fosse e projetar cada evento num hipotético ser alheio, é deixar-nos sem veias, sem células mortas, sem traços do que sucedemos.
Segui andando e tentei evitar o pensamento. A filosofia faz-me mal. No entanto, habito no seu estômago, o lugar impuro onde tudo o que somos é digerido como esclarecimento estatístico.
O assomo não me abandonou à medida que caminhava. Ainda assim consegui fazer uns desenhos no caderno, utilizando um parte esconsa do cérebro para aproveitar o Sol.
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sexta-feira, 6 de maio de 2011
Cartaz
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| ©Frederico Mira George |
#23
Tornou-se um bizarro ritual nocturno. No princípio da madrugada, dezenas de borboletas atraídas pela luz do quarto, disparam em voos contra as paredes, sobre mim, a cama...
Com todos os instrumentos de morte que improviso, executo-as uma a uma. Todas têm uma morte lenta e agonizante que pressentem e contra a qual lutam desesperadamente.
Se as visse num jardim botânico ao meio do dia, enquanto contemplava flores ou pequenas árvores em rebento, achá-las-ia belas e transparentes de cores enternecidas de tons de ocre e negro. Aqui, neste quarto, à noite, resta-me o homicídio.
Esta noite compreendi que até os carrascos tem cansaço e precisam de repouso. Fechei as luzes e no quase-escuro, sentindo-as esvoaçar e bater contra os vidros e o tecto, fingi que as não ouvia. Protegi a cabeça com mantas e deixei-as. Passado uns minutos pareciam ter acalmado. Pensei que não voltaria a ter de matar diariamente.
Já esta manhã, despertei acidentalmente no abrir-do-sol e vi-as tentando encaixar os corpos em fissuras das paredes.
Sei que me esperam. Sei que as terei de confrontar. É um cenário dantesco, um quarto mínimo, invadido por dezenas de borboletas ansiosas para depositar os seus ovos entre as páginas dos livros, nas roupas, na comida que resta em pratos esquecidos... O homicídio voltará.
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quinta-feira, 5 de maio de 2011
Cartaz
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| ©Frederico Mira George |
#22
As cores do rosto tinham mudado muito. Já não tinha aquele rosado saudável dos anos vivos da juventude e começavam a notar-se gestos de cansaço junto aos olhos e nos cantos da boca.
Não se podia dizer que tivesse envelhecido. Era o mesmo. Era ele à primeira vista. Cruzámo-nos num breve instante e o olhar de reconhecimento foi reciproco. Mas ele preferiu andar e não se prender numa conversa comigo. Da minha parte teria sido breve, mas se ele assim o preferiu.
Guardei a gravação do colorido da sua face e pensei que se tivéssemos conversado já nem recordaria o encontro. Foi muito melhor assim.
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quarta-feira, 4 de maio de 2011
Cartaz
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| ©Frederico Mira George |
#21
Ainda deitado, percorri o corpo com as mãos. Quis provar à consciência que aquela dormência e a sensação de ter os membros despegados dos sentidos era uma ilusão e que rapidamente me iria recompor.
A verdade é que salvo raros momentos diurnos, do corpo, só tenho notícias imperfeitas e nada de físico responde à autoridade cerebral.
É preciso falar a alguém disto e só podes ser tu.
O café e os cigarros já não me distraem desta condição.
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terça-feira, 3 de maio de 2011
Cartaz
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| ©Frederico Mira George |
#20
Sentei-me no cadeirão e tentei ler... mas em cada linha o alarme era tão forte e as comoções tão reais e sanguíneas e rápidas, que o coração me batia por dentro e por fora como um enfarte de beleza.
Lembrei-me de ti e procurei-te logo no vetusto livrinho dos telefones (já ninguém usa desses livros, mas é a única forma que possuo de ter as pessoas perto de uma maneira física) e lá estavas, denso e robusto (Ah! é que eu pedia sempre àqueles que desejava que escrevessem o nome pelo próprio punho. Em cada contacto listado, não é a minha caligrafia que sobressai, são os gestos peculiares que cada personagem dá às suas agitações alfabéticas). É claro que depois não tive coragem de te telefonar. Nem saberia o que te dizer e tu és um homem tão ocupado.
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segunda-feira, 2 de maio de 2011
Cartaz
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| ©Frederico Mira George |
#19
Inesperadamente a tempestade primaveril amansou.
Agora é o vento que espalha um pólen que me deixa os olhos suados, a visão fosca. Especialmente neste estúdio de paredes quadriculadas onde fiz um quarto.
Durante toda a manhã o casal que vive no prédio das traseiras discutiu.
Zangadamente amorosos.
Gritavam muito, ainda por cima nas escadas de fogo, sobre os quintais.
Ninguém se atreveu a vir à janela, mas ouvia-se com clareza cada palavra de quebranto que um desprendia sobre o outro. Eles estavam tão quentes naqueles bramidos que só o amor imenso deixa ocorrer...
De alguma maneira foi bom reconhecer uma fúria de afeição em corpos enfraquecidos.
Agora está tudo em silêncio.
Eles, talvez, abraçados num choro tépido.
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domingo, 1 de maio de 2011
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