«O Peixe de Herberto»©FMG

quarta-feira, 8 de junho de 2011

cartazes, Diário Literário - Parte II - «A Narrativa»: #45

© Frederico Mira George, @ff

#45

Tinha passado a manhã a tentar escrever e não tinha conseguido redigir uma frase. O romance estava escrito e desenhado na cabeça, se por um lado isso lhe conferia o desejo imenso de o expor e tornar objeto concreto, por outro, desmotivava-o ter de passar para o papel aquilo que na cabeça era sempre mais perfeito e exacto.
Simão Jó, escrevia de manhã. Só de manhã e muito cedo. Aproveitava aquelas horas matinais em que a consciência mal separa a realidade do que são restos do sono e da abstracção própria dos sonhos. 
Ter acordado com um telefonema de Sven obrigou-o a reagir, responder, decidir, enfim... a despertar, matando-lhe toda a disponibilidade para trabalhar.
Quase ninguém entendia a necessidade de Simão consagrar as manhãs à escrita (e escrever era recompor-se). Na generalidade, quando Simão Jó revelava aos outros esta sua particularidade, supunham tratar-se de um capricho pretensioso. Contudo, a urgência que Simão tinha de escrever era sinonima de perdurar. Ter as manhãs assim devotadas era caucionar a si próprio que cada dia tinha um rosto diferente.
Sven tinha-lhe sequestrado a manhã com aquele telefonema. Sem o saber e por um assunto sem importância, Sven tira atirado Simão Jó para um dia de agonia.
A meio da tarde, sentindo-se impotente de tudo, Simão deitou-se na condição que mais temia: o torpor oco e infértil dos dias sempre iguais de uma década em que Portugal voltara à horizontalidade abafada de nada acontecer.
© @ff

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