«O Peixe de Herberto»©FMG

sábado, 18 de junho de 2011

Cartazes, Diário Literário - Parte II - «A Narrativa»: #49

©Frederico Mira George

#49

Vagarosamente recomeçou a escrever. Versos muito longos e narrativos. Voltava a ser possível contar histórias através da poesia. A alegria dos anos antecessores quase a tinham calado, o ruído da felicidade inibe a fala dos poemas.
Como sempre fizera, escrevia de manhã ainda de roupão, aproveitando o silêncio violento da luz de Julho. Se fosse dia de chuva, sentava-se perto da janela. Olhava para rua e vendo o carreiro de gente humana passar, ia registando palavras desamparadas num pequeno bloco para depois as unir num fio que só ela sabia seguir no entrançado mecânico da máquina de escrever.
Tinha chegado o fim da felicidade. Os poemas ressurgiam numa franca abóbada de ressentimentos e fúrias caladas.
©

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